segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O mais é nada.

Tão Cedo Passa Tudo quanto Passa
Tão cedo passa tudo quanto passa! 
Morre tão jovem ante os deuses quanto 
Morre! Tudo é tão pouco! 
Nada se sabe, tudo se imagina. 
Circunda-te de rosas, ama, bebe 
E cala. O mais é nada. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Negro do Osso



Minha profissão me deu muito mais do que jamais imaginei ganhar.

Povo da Rua

Exú, também tem a sua lei,
Exú é mensageiro de Oxalá,
Salve Ordenança de Ogum,
E salve a Banda,
Vem no terreiro de Umbanda trabalhar..
Mas ele é, Capitão da Encruzilhada, ele é,
Mas ele é, Ordenança de Ogum,
Sua coroa quem lhe deu foi Oxalá,
Sua divisa quem lhe deu foi Omulú,
Mas ele é... 
Salve o cruzeiro,
Salve o sol e salve a lua,
Saravá Povo da Rua,
E a Coroa de Oxalá.




Exu é amor em movimento. Minha primeira gira de esquerda foi a gira mais bonita que já participei. Entrei no Congá sorrindo, reconhecendo tudo aquilo, me sentindo em casa. E com a certeza da minha vontade de trabalhar, de viver essa fé, esse karma, esse amor. Quanto axé. 
"Ele mandou chamar..."

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Corre gira que Ogum mandou

Três dias que valem por uma vida. Cheguei em Pernambuco e foi como se o coração duplicasse de tamanho. O que é bom fica melhor, o que é ruim, pior. Ali eu tinha o que fazer, contribuir, aprender, conhecer. Ao mesmo tempo, aquele sol, o sotaque, os cheiros, as experiencias. Tudo me trazia para o sertãozinho que carrego comigo. 
Mas eu sempre digo que as respostas estão nas mulheres. Em 5 horas de estrada de chão, vim escutando Maria Bethânia e conversando com uma das mulheres mais "arretadas" que já conheci. E que por dessas coisas que a vida não explica, dividiu comigo a história do sertão que ela carrega. E me disse que depois que passa, a gente sai mais forte, consciente espiritual. E que nós, mulheres, pagamos o preço bonito de viver um pouco mais. 
Eu disse para ele que aqueles lugares todos, aquelas pessoas, aquelas experiencias me tocavam demais, que me emocionavam muito. E ai ela disse: por isso você também sofre, Gabi. Porque você também intensamente sabe ser feliz e se entregar para esse sertão. 


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Lavanda

Segunda-feira fui pedir benção aos Orixás. A Umbanda, seus cheiros, suas musicas, aquela magia toda que só filho de pemba consegue sentir em um terreiro: estava na hora de voltar. Já na defumação e nos cantos, eu ia me sentindo mais leve. As imagens, a pipoca, o cheiro das ervas, aquela sensação de estar em casa. Ao falar com o vovô, meu coração já estava mais forte. E ele me disse que ia ficar tudo bem, que eu cuidasse do meu dia a dia, dos pequenos rituais de prazer, que meu coração e cabeça estavam descompassados e era hora de ser mais racional. Esmeralda comigo, pedi tanto  por ela e podia senti-la  perto de mim. Depois me deu uma banho de lavanda, o passe e um abraço cheio de amor. Voltei para casa cheirosa, tão feliz, tão leve. Meu cheiro, minha casa, eu novamente. 

sábado, 8 de outubro de 2016

A dialética do amor

"Amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação. De alguma forma a gota de chuva aparecerá de novo, o vento permitirá que velejemos de novo, mar afora. Morte e ressurreição. Na dialética do amor, a própria dialética do divino. Quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor. Porque amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça. Aparece quando quer, só nos resta ficar à espera. E quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que vale a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro."
Rubem Alves.
A resposta sempre nos livros e caderninhos que carrego comigo. Sortuda. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Feito menino

" A gente estava desagalhado na alegria, feito meninos"
Guimarães Rosa 

Houve uma vez dois verões

Eu lembro que a hora do dia que eu mais gostava eram os fins de tarde. A cidade tão simplória ficava linda na minha expectativa de mais uma noite de verão incrível no pampa gaúcho. As bebedeiras, as tardes de sol, as melancias gigantes, as coxilhas, as idas pra fora, as cumbias, as festas sempre no mesmo lugar (e sempre tão diferentes), os gaiteiros, as voltas de carro sem fim, as cantorias, as gurias, trocar o dia pela noite, os beijos inesquecíveis com gosto de cerveja e sul, o minuano, o calorão sem fim, as rádios, aquele cheiro que só tem lá, a casa da Nega, as junções, São Felipe, banho de açude, cachorro quente do Moeda, o Emiliano, o Dado, aquele céu estrelado, os acampamentos, as ressacas na piscina, o Comercial, o baile da Jupob, trocar de amor de um dia pro outro, o dia que o Alvaro chegava e o resto da cidade morria pra mim, as ciumeiras, as noites que duravam dias, as ligações de madrugada (to aqui fora, sai aí, Bibi), o dia que fui acordada com um tênis jogado na janela, os beijos entre as grades, dormir no quarto e na cama que tinham sido da minha mãe, as mensagens de texto, aqueles meninos de bombacha com tanto orgulho, os churrascos de ovelha, a porta que quando abria gelava meu coração, uma prima doida e amada que até hoje ninguém superou no quesito animação de festa, os inícios de manhã no posto (nunca nunquinha sem beijo), receber a ligação que eu tanto esperava e sair escondida do vô e da vó no meio da noite, do Bernardo, dos cochilos para aguentar a noite, de me maquiar escutando La Barca, de ir a bailes! Em São Gabriel tinha bailes... de tudo soar bem em espanhol! O Uruguai ali do lado. São tantas boas lembranças de ser menina no sul, de passar o verão inteiro feliz numa cidade tão idealizado por mim. São Gabriel é tão provinciana, tão boba, tão graciosa, tão divertida. Minha. Se São Gabriel tivesse que ser uma música, seria Yo Vendo uno ojos negros.
 O Angico depois da árvore no meio da estrada. Hoje minha mãe me ligou e disse que estava indo para São Gabriel e meu coração apertou. Lembrei da sensação de ter um lugar só meu, de ninguém daqui saber de nada, de me esconder numa cidadezinha sem nenhuma importância no extremo sul, de jurar que eu ia morar um dia lá (e ter certeza que jamais suportaria).Eu chorava muito na volta, eram os piores retornos, os mais sofridos. Mas todo ano tinha de novo e tudo se repetia sem erro (em especial os beijos com gosto de cerveja e Sul).


Cuando la luz del sol se esté apagando
Y te sientas cansada de vagar
Piensa que yo por ti estaré esperando
Hasta que tú decidas regresar

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Floriano estava cansado

Silvia ia andando com duas malas e um coração partido, naquele início de noite chuvoso. A certeza ela já tinha, era possivel sentir no ar, mas era preciso dizer tchau. Parecia que toda a rua sabia, todos que passavam por ela. Só que era  preciso falar daquele amor sentido, de tanto carinho, de tanta tristeza e alegria ao mesmo tempo. E Silvia falou muito. Para desafogar um pouco o coração já cheio de saudade. Silvia tocava Floriano, mas não o alcançava mais. E era bonito, porque ela falava também pra si. Para se perdoar por tanto querer, por tantos sonhos, por tanto desejo. Silvia queria  os beijos e o corpo de Floriano de um jeito que ele, sinceramente, disse não poder dar mais a ela. 
No outro dia, releu cartas, chorou, sentiu mais saudade. E disse tchau dentro de si, o mais difícil.
Várias vezes, Floriano havia dito que sentia saudades dela. Aquela era uma coisa de acalmar e ao mesmo tempo dilacerar um coração.  Silvia apagou todas as cartas, menos aquela. Era a ferida acesa, a confirmação de que ela tinha existido. Floriano olhava para Silvia de forma carinhosa, mas cansada. Tanto amor sem reciprocidade... cansa. Só que Silvia ainda se sentia leve, com força, determinada a ser fiel ao seu coração e ao amor simples que sentia.
O que restava a Silvia era voltar ao Angico, aos seus livros, lembrar de si, da mulher que era antes da ferida acesa e da mulher que queria ser agora. Havia tanto a ser feito! O Angico estava ali, firme. E Silvia era mais que aquele amor. Silvia tinha muito o que lutar. Havia uma revolução a ser feita, tantos livros a serem lidos, tantas pessoas a conhecer, tanto sertão para correr. Tanto amor para dar. O amor que Floriano não quis seria transformado em vida. Silvia gostava era de viver.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Voz

"O feminismo de esquerda dá as mulheres um passado, a força de construção do presente e a perspectiva de um futuro. Lutamos contra o patriarcado e o mundo de exclusão. Você tem voz, Gabriela.". Sai da UnB inspirada pelo feminismo de esquerda, que luta contra o patriarcado, contra esse mundo de exclusão e que começa a me dar a voz que me tiraram. A revolução e a resposta serão feministas.