terça-feira, 22 de novembro de 2016

Fracasso

"Todo mundo teve algum "fracasso" em 2016. Algo que desabou, ruiu, que foi percebido como uma ilusão. Algo em que se depositava muita esperança, mas que a realidade mostrou ser diferente. As lições mais valiosas do ano vieram desse "fracasso". Mas quem fracassou foi o ego. A Alma evoluiu. Foi preciso se render. E isso é precioso"

Um filme no close pro fim



Há ilusões perdidas mas tão lindas que a gente as vê partir como esses balõezinhos de cor que nos escapam das mãos e desaparecem no céu...

Mario Quintana, In: A vaca e o hipogrif

O rio


"Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."
Trecho de A terceira margem do rio, in PRIMEIRAS ESTÓRIAS. João Guimarães Rosa. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Para hoje

"Costumo dizer que moro na terra dos duendes. Aqui aprendo que falar alivia dores emocionais, que o sol queima, a aceitar derrotas. Que paciência requer muita prática. Que o tempo não é algo que possa voltar para trás. E, principalmente, aprendo a perdoar a mim mesma"
Jane

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sílvia havia comprado presentes, escolhido sua melhor versão, havia feito tanto esforço. Tudo tinha uma intenção, uma espera, uma esperança. Ela estava perdida, interpretando a própria vida, fazendo as escolhas mais erradas, tão longe de si e sem alcançar ninguém. Nem Jango, nem Floriano. Silvia mentiu. A pior das mentiras: a que diminui nossos sentimentos. Floriano simplesmente não existia mais. Silvia escreveu uma longa carta, a mais sincera, a mais doída de escrever. A resposta foi que a verdade pode doer, mas também liberta. 
Já havia passado da hora de Silvia ir embora. O Angico e Jango esperavam por ela. Silvia começou a voltar. A ser só a Silvia novamente. 

Desabei na tempestade

Hoje eu encontrei a Lua
Antes dela me encontrar
Me lancei pelas estrelas
E brilhei no seu lugar
Derramei minha saudade
E a cidade se acendeu
Por descuido ou por maldade
Você não apareceu

Hoje eu acordei o dia
Antes dele te acordar
Fui a luz da estrela-guia
Pra poder te iluminar
Derramei minha saudade
E a cidade escureceu
Desabei na tempestade
Por um beijo seu

Nem a Lua, nem o Sol, nem Eu
Quem podia imaginar
Que o amor fosse um delirio seu
E o meu fosse acreditar

Hoje o Sol não quis o dia
Nem a noite o luar


Maria Bethânia e Lenine

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"A dor é uma estrada: você anda por ela, no adiante da sua lonjura, para chegar a um outro lado. E esse lado é uma parte de nós que não conhecemos"
Estórias Abensonhadas, Mia Couto. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Silvia olha a cidade ao redor

Silvia anda triste, tentando lembrar quem é, entender a vida. O Angico ainda está lá, a casa, as coxilhas, as flores, os quadros, um cusco feliz, Jango, aquele amor, o trabalho. Tudo que ela não alcança ainda, perdida em um minuano particular que sopra sem parar. A redenção acabara por vir, mas qual será a Silvia depois disso? Algo morreu. Silvia lembra da infância, dos livros que já leu, dos sonhos, da fé finalmente sentida e reconhecida, dos muitos amigos. Quanta intenção em tudo que pensa, que vê. É preciso recolhimento, choro, escrita e atenção. O que ela quer é barulho de água corrente, cheiro de lavanda, desafogo, campo aberto, paz, mais consciência, o presente, o amor sereno e firme de Jango, um entendimento de si mais generoso. Menos sertão. Mais Angico. 
Diante de um leão, Silvia olha a cidade ao redor, finge ter calma, mas tem pressa. Fecha os olhos e espera o recado silencioso de Deus. 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Tomara meu Deus, tomara




Tomara meu Deus, tomara
Que tudo que nos separa
Não frutifique, não valha
Tomara, meu Deus

Tomara meu Deus, tomara
Que tudo que nos amarra
Só seja amor, malha rara
Tomara, meu Deus

Tomara meu Deus, tomara
E o nosso amor se declara
Muito maior, e não pára em nós

Se as águas da Guanabara
Escorrem na minha cara
Uma nação solidária não pára em nós

Tomara meu Deus, tomara
Uma nação solidária
Sem preconceitos, tomara
Uma nação como nós

O chamado

Sempre fui uma pessoa distraída (ascendente em Gêmeos). A minha profissão foi a coisa mais inconsciente que escolhi na vida. Gostava de ler, gostava de história, tinha uma mente completamente de humanas. Achava Antropologia um nome bonito e tinha uma vaga ideia do que fazia um antropólogo. Cai de paraquedas num curso que abriu minha cabeça, meus horizontes e colocou meus pés um pouco no chão. Mas foi quando virei servidora pública e comecei a rodar o Brasil para conhecer agricultores familiares e comunidades tradicionais, em especial as do nordeste, que meu coração recebeu algum tipo de chamado. Entendi que eu não sabia nada e que deveria abrir o espirito para aquelas pessoas, para aquele conhecimento, exercer minha profissão com amor. Ao todo serão cinco viagens à Pernambuco só esse  ano, percorrendo Agreste e Sertão. Conheci pessoas incríveis, recebi tanto amor e axé, aprendi tanto e em especial vi que nada sabia da história do meu povo. Da verdadeira história.
E é lá no Sertão que curo minha dor. O campo desafoga o coração. O sertão que levo em mim lá silencia.Tenho um trabalho, um ofício simples, que é conhecer essas pessoas e sensibilizar quem trabalha comigo a escuta-las. Essa é a minha Ciência. Me emocionar, aprender e repassar. 
Assim conheci seu Loro, que me deu uma aula e muito carinho.